A Quaresma é o tempo litúrgico de conversão que a Igreja reserva para nos preparar para a grande festa da Páscoa. Observe a simbologia do deserto, o número 40 representa um tempo de provação e purificação. Recordamos os 40 anos do povo de Israel no deserto e os 40 dias de Elias na montanha. Mas, sobretudo, olhamos para Jesus, que antes de iniciar a sua missão pública, retirou-se para o deserto para jejuar e orar.
A Igreja convida-nos a entrar nesse “deserto” com Jesus. O deserto é o lugar do silêncio, onde nos despimos do supérfluo para ouvir o essencial: a voz de Deus.
Para viver bem este tempo, a Igreja propõe três práticas fundamentais (baseadas em Mateus 6), que servem como remédio contra o nosso egoísmo:
- A Oração (Relacionamento com Deus): É o tempo de intensificar o diálogo com o Pai. Não apenas recitar fórmulas, mas cultivar a intimidade, o silêncio e a escuta da Palavra. A oração cura a nossa autossuficiência.
- O Jejum (Relacionamento consigo mesmo): Não é apenas uma dieta ou privação física. O jejum serve para educar as nossas vontades. Ao dizer “não” a uma comida, ao telemóvel ou a um hábito, fortalecemos o nosso espírito para não sermos escravos dos nossos instintos. O que economizamos no jejum deve transformar-se em ajuda ao próximo.
- A Esmola/Caridade (Relacionamento com o próximo): É a consequência natural da oração e do jejum. A Quaresma deve abrir os nossos olhos para a dor do irmão. A esmola não é dar o que sobra, mas partilhar o que temos e somos.
O Caminho da Conversão
O tempo da Quaresma é o momento oportuno para que olhemos mais profundamente para o Mistério da Cruz. Olhar para a Cruz, contemplar esse Mistério é ir ao porquê de tudo aquilo que nós faremos durante a Quaresma. As orações, os jejuns e esmolas têm sentido porque nos põem em contato com a Cruz do Senhor. Além do mais, nós recebemos do Mistério da Cruz a força para unir-nos à mesma Cruz, ou seja, aquilo que Deus nos pede, Ele nos concede: Deus pede que rezemos? Ele nos dá a graça da oração. Deus nos pede que façamos penitência? Ele nos dá a graça para realizá-la? Deus pede que partilhemos e que não sejamos egoístas? Ele nos dá a graça da generosidade e da esmola. O que está por detrás de tudo isso é a primazia da graça de Deus na nossa vida. Quando dirigimos o nosso olhar contemplativo ao mistério da Cruz do Senhor surge em nós o desejo de fazer aquilo que São Paulo fazia: “o que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24).
Não é um tempo triste, mas um tempo “sério”. É o momento de:
- Reconhecer que somos pó: A fragilidade da vida (Cinzas).
- Arrepender-se: Buscar o sacramento da Confissão.
- Renovar o Batismo: Preparar o coração para renovar as promessas batismais na noite de Páscoa.
A Quaresma não é um fim em si mesma; ela aponta para a Ressurreição. Caminhamos na penumbra não porque gostamos da escuridão, mas porque sabemos que a Luz do Cristo Ressuscitado nos espera. É um tempo de limpar a casa interior, retirar os entulhos do pecado e deixar o espaço livre para Deus habitar.

