Igreja em estado permanente de missão

Por  Jonas Marciel Assis*

“Uma Igreja em estado permanente de missão nos leva a assumir a missão ad gentes, dando ‘de nossa pobreza’, em outras regiões e além-fronteiras. Uma Igreja Particular não pode esperar atingir a plena maturidade eclesial para, só então, começar a se preocupar com a missão para além de seu território.” (DGAE, Doc. 102, n.78-79).¹

A Igreja do Brasil proporcionou o terceiro ano vocacional com o lema “Corações ardentes, pés a Caminho”, motivado pelo encontro dos discípulos de Emaús com o Cristo Ressuscitado. Ter o coração ardentes é uma consequência do discípulo que se encontra com o Mestre, faz experiência da Palavra, celebra a Eucaristia e faz comunhão com os irmãos. Ter os pés a caminho significa que esse discípulo soube aceitar a proposta de Jesus de ir pelo mundo e anunciar o Evangelho a toda criatura (Mc 16,15), porque todos os homens e mulheres devem ser chamados a fazer parte da graça redentora de Cristo.

Além disso, a escolha do tema para o ano vocacional 2023, “Vocação: graça e missão”, reflete a preocupação da Igreja com a realidade missionária que deve vivenciar os discípulos de Jesus em suas mais variadas vocações. É possível perceber a preocupação com uma Igreja sinodal, em saída e que valorize cada vez mais o serviço e entrega daqueles que se colocam à disposição do anúncio do Reino de Deus. A vocação é um chamado que é entendido como graça e missão. Graça porque é dom de Deus, algo que brota da gratuidade do amor divino, e missão porque, entendendo as necessidades da messe do Senhor, o vocacionado parte para anunciar esse amor que salva todo o gênero humano.

Dentro do Ano Vocacional várias são as atividades missionárias que a Igreja promove, dentre elas a I Experiência Vocacional-Missionária Nacional, na Arquidiocese de Manaus, que ocorreu entre os dias 5 e 17 de janeiro. Foi um evento promovido pelas POM, juntamente com a OSIB e o COMISE, a fim de formar uma mentalidade e coração missionários para os participantes seminaristas, padres formadores, religiosas e Juventude Missionária. O lema “Cristo aponta para a Amazônia” reflete a preocupação do Papa Francisco com a Igreja nessas terras, tendo como resultado desta preocupação a Exortação Apostólica “Querida Amazônia”.

O que é ser missionário na Amazônia? Corremos o risco de responder a partir de vários pressupostos e estereótipos criados pela sociedade sobre aquele lugar: a hostilidade, a distância, o diferente… No entanto, quem faz realmente uma experiência amazônica consegue entender como os problemas que atingem aquele local são frutos de exploração, de abandono e de disputa. É sim distante um local do outro, difícil acesso, onde tudo é mais calmo e demorado. As sociedades locais enfrentam a realidade da fome, das drogas e da prostituição. No entanto, Amazônia é local de matas, uma grande diversidade de animais, um local de potencial. A Igreja do povo amazonense é hospitaleira, alegre e receptiva. Lá têm pessoas que doam o seu melhor para um desconhecido que chega. São homens e mulheres que lutam para criar suas famílias, manter as suas raízes e proporcionar dignidade aos que estão aos seus cuidados.

O missionário que vai à Amazônia deve estar preparado para colocar os pés no barro, enfrentar chuvas e banzeiros, gastar horas em barcos para chegar de uma localidade à outra, para ir a cada família que tem sede da Palavra e da Eucaristia. As limitações de acesso assolam comunidades que ficam anos sem a presença de um sacerdote e, portanto, sem a presença da Eucaristia. Muitos lugares a Igreja e o anúncio do Evangelho são mantidos por missionários locais, leigos e leigas que viveram toda a sua vida ali, mas entendem a realidade da missão. Lugares também que a celebração da Palavra é coisa estranha, “não está no nosso costume”, pois há anos não chega nenhum missionário ali. É esse o interior do Amazonas: formado por comunidades beira-rio, cidades e povoados pequenos, também por tribos indígenas e pessoas que vivem afastadas de qualquer centro populacional.

Chegar a esses locais para uma experiência missionária é enfrentar o medo, a apreensão, o desconforto, mas, com certeza, há recompensa. O traço que mais marca ao encontrar esses povos é a alegria, mesmo diante da dificuldade, pois são pessoas que ofertam o pouco que se têm para receber um missionário, aquele que traz a benção de Deus. Há ali homens e mulheres que não sabem o que é o Evangelho, quiçá o que é a Missa. No entanto, têm sede de presença. Desejam que alguém olhe por eles, sejam eles enfermos, idosos ou pessoas que vivem na miséria. O missionário lá mais escuta que fala, mais presencia do que age, porque entende que são pessoas que precisam ser ouvidas, precisam desabafar suas dores e chorar o que sentem.

Enxergar a Amazônia como lugar apontado pelo Cristo é contribuir com as próprias mãos no serviço da Igreja, fazendo da própria vocação graça e missão. É uma experiência única e marcante estar em meio aos amazonenses, poder experimentar de sua culinária, seu clima e seus costumes, viver a realidade que eles vivem, ser Igreja com eles. Os desafios que se apresentam na Igreja do local são os de formar lideranças, de estabelecer uma cultura vocacional, criar pastorais do enfermo e da pessoa idosa e, principalmente, de uma pastoral social que alcance a todos ali residentes.

É preciso pedir ao Senhor que envie mais operários para a sua messe, sejam eles leigos, consagrados ou sacerdotes. O Papa Francisco nos recorda que esta é “a missão confiada pelo Senhor ressuscitado à Igreja: evangelizar toda a pessoa e todos os povos até aos confins da terra. Hoje, mais do que nunca, a humanidade, ferida por tantas injustiças, divisões e guerras, precisa da Boa Nova da paz e da salvação em Cristo”². Como é bom reconhecer que a Igreja está escutando o mandato missionário do Senhor. É nessa intenção que pedimos, “ó Senhor, fazei dar frutos, o labor de nossas mãos”.

Mãe da Amazônia, rogai por todos nós!

* Seminarista da Diocese de São João del Rei (MG)

1. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora 2019-2023, CNBB.
2. Mensagem de Sua Santidade Papa Francisco para o dia mundial das missões de 2023. Disponível em: <https://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/missions/documents/20230106-giornata-missionaria.html>

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